26.06.2026
Encontrar esperança em tempos de policrise
Artigo de Opinião – Helena Freitas
Vivemos um tempo marcado pela convergência de múltiplas crises que se interligam e reforçam mutuamente. Conflitos armados, desigualdades crescentes, degradação ambiental e a disseminação de discursos extremistas ocupam diariamente o espaço público e alimentam um sentimento generalizado de incerteza. Embora continuem a surgir exemplos de coragem, criatividade e solidariedade, torna-se cada vez mais difícil ignorar as fragilidades e tensões que atravessam as sociedades contemporâneas.
A crise ambiental é talvez a expressão mais visível desta realidade. Há anos que a comunidade científica alerta para a aproximação acelerada de pontos de não retorno nos sistemas climáticos, enquanto fenómenos extremos se tornam mais frequentes e a biodiversidade continua a desaparecer. Ainda assim, persistem discursos políticos que minimizam a urgência da ação climática, precisamente quando as populações mais vulneráveis enfrentam de forma mais direta as consequências destas transformações.
Em paralelo, assiste-se a uma profunda crise política global. Em várias democracias cresce a desconfiança nas instituições, ganham força movimentos autoritários e aprofundam-se divisões sociais. No plano internacional, a sucessão de guerras, a violência em diferentes regiões do mundo e as disputas entre potências alimentam um sentimento generalizado de insegurança e fragilidade.
No plano económico, milhões de famílias vivem sob pressão constante. O acesso à habitação tornou-se um desafio para uma geração inteira, o trabalho é frequentemente precário e a riqueza concentra-se de forma cada vez mais desigual. Para muitos jovens, a promessa de estabilidade e progresso parece afastar-se à medida que o horizonte se torna mais incerto.
Mas estas crises não são apenas políticas, económicas ou ambientais. Existe também uma crise social profunda, marcada pelo aumento da solidão e do isolamento. Após a pandemia, fragilizaram-se muitas redes de convívio, e em diversos contextos a busca pela pertença deslocou-se para os espaços digitais. Nesse vazio, multiplicam-se narrativas simplistas, teorias da conspiração e discursos que transformam o medo e a frustração em hostilidade contra minorias e grupos específicos.
A tudo isto soma-se uma crise da informação. Vivemos imersos num fluxo contínuo de conteúdos, opiniões e estímulos. A tecnologia aproximou-nos do mundo, mas nem sempre nos ajudou a compreendê-lo melhor. As mesmas ferramentas que ampliam o acesso ao conhecimento podem também favorecer a manipulação, a desinformação e a polarização. As redes sociais aceleram emoções imediatas como a indignação, o medo, o conflito, enquanto enfraquecem, por vezes, a confiança mútua e a qualidade do debate público.
Mas a esperança continua a encontrar lugar para crescer. Apesar da dimensão dos desafios, existem razões concretas para acreditar na capacidade humana para lhes responder. Muitas dessas razões nascem à escala local. Em associações, escolas, projetos culturais, movimentos ambientais e iniciativas comunitárias, surgem diariamente exemplos de solidariedade, participação cívica e cuidado coletivo. São nesses espaços de proximidade que se reconstruem laços de confiança, se fortalecem comunidades e se criam alternativas capazes de enfrentar a fragmentação social.
A esperança não consiste em ignorar a gravidade dos problemas nem em acreditar que tudo se resolverá por si só. É, antes, a decisão consciente de agir apesar da incerteza. Nasce quando reconhecemos as dificuldades sem lhes conceder a última palavra. E fortalece-se sempre que pessoas diferentes se unem para imaginar e construir um futuro mais justo, mais sustentável e mais humano.
Professora Catedrática da Universidade de Coimbra, Coordenadora do CFE – Centre for Functional Ecology, UNESCO Chair em Biodiversidade.
Artigo elaborado para o projeto “Desafios Globais para o Desenvolvimento”, implementado pelo Clube de Lisboa, a PCS e a UAL, com cofinanciamento Camões I.P.

