28.11.2025

A maioria dos cidadãos é muito favorável à solidariedade internacional e está preocupada com o estado do mundo, defendendo respostas mais concertadas

Artigo de Opinião – Patrícia Magalhães Ferreira

sondagem aferiu como os cidadãos em Portugal percecionam e se posicionam face a desafios globais e à solidariedade internacional, incluindo as perspetivas para o futuro, a opinião sobre os desafios da paz e segurança, do ambiente e alterações climáticas, da governação global e do desenvolvimento. No geral, as respostas denotam um grau assinalável de consciência sobre as interdependências globais.

A esmagadora maioria reconhece a solidariedade entre os povos como uma forma eficaz para enfrentar os grandes desafios globais e implementar soluções concretas, sendo também uma obrigação ética e moral de todos os Estados no mundo – enquanto a ideia de que tal é uma forma de gerar burocracia e de gastar dinheiro de forma ineficaz encontra pouca concordância. A maioria dos cidadãos afirma que nos últimos anos se tornou mais favorável à cooperação e solidariedade, após a pandemia de Covid-19 e, muito especialmente, após o início da guerra na Ucrânia. 

Com efeito, o contexto de conflitualidade crescente a nível internacional marca transversalmente as opiniões dos cidadãos. As guerras, conflitos e violência são apontados como a maior ameaça à solidariedade internacional e uma das mais fortes razões para reforçar a cooperação. Além disso, o contrário também se verifica, ou seja, a maioria das pessoas considera que sem uma redução das desigualdades não existirá paz em diversos locais do mundo, pelo que a erradicação da pobreza e da fome deveria continuar a ser uma prioridade global e de todos os países. É ainda  expressa preocupação com o desrespeito pelo direito internacional e as crescentes violações dos direitos humanos, defendendo-se a existência de mecanismos de responsabilização e sanções para o incumprimento de acordos mundiais assinados, em todos as áreas.

A grande maioria da população afirma sentir-se bastante preocupada e afetada pelos desafios enfrentados pela Humanidade, principalmente pelos impactos globais desses desafios. No entanto, os cidadãos estão maioritariamente pessimistas quanto ao futuro do mundo, considerando que o contexto global estará pior daqui a 10 anos – principalmente nas áreas do ambiente e alterações climáticas, da pobreza e fome, e dos conflitos armados e violência.

No âmbito do ambiente e ação climática, mais de dois terços das pessoas acreditam que as alterações climáticas são um fenómeno real causado pela ação humana. A esmagadora maioria mostra-se a favor da transição verde e descarbonização das economias, tal como está expresso nas metas e objetivos acordados a nível internacional, embora mais de dois terços apoiem essa transição com algumas reservas, particularmente desde que sejam acautelados os impactos humanos e sociais. Entre os principais obstáculos à eficácia de uma ação global nesta matéria, destacam a inação e a falta de vontade política, bem como a recusa das economias mais poluentes em assumir os custos necessários. 

Os cidadãos consideram as organizações internacionais multilaterais como os agentes a quem cabe a maior responsabilidade na procura de respostas para os desafios globais, e existe um grau de confiança positivo nas instituições internacionais, particularmente nas Nações Unidas e na União Europeia. Naturalmente, estas organizações também são o resultado das vontades e interesses dos Estados que as compõem, e isso mesmo é reconhecido pelos cidadãos, ao afirmarem que a falta de capacidade para impor as decisões e acordos celebrados, a falta de voz e de poder de decisão dos países mais pobres e vulneráveis, e a paralisação dos seus órgãos devido aos interesses nacionais são fatores a ter em conta na (in)eficácia das Nações Unidas. A maioria defende um reforço e/ou reformulação desta instituição para que possa ter respostas mais assertivas e eficazes.

Apesar de uma maioria significativa das pessoas ser da opinião que Portugal é um interveniente reconhecido no âmbito da cooperação e solidariedade internacional, mais de metade dos inquiridos considera que Portugal não trabalha o suficiente com os outros países para resolver os problemas globais. Nesse âmbito, o cumprimento dos acordos internacionais por parte de Portugal é fundamental, e uma grande maioria (mais de 3 em cada 4 pessoas) também concorda que Portugal deve apoiar financeiramente outros países mais pobres e vulneráveis no mundo, no espírito da solidariedade internacional.  Entre os principais objetivos da ajuda externa portuguesa, estão: contribuir para a paz mundial, reduzir a pobreza global, e prestar assistência humanitária a populações afetadas por conflitos ou catástrofes naturais, enquanto outros objetivos, com um carácter mais interno/nacional ou relativos a benefícios próprios, não colhem grande concordância.

Os resultados da sondagem não revelam grandes disparidades em termos de classes sociais e de regiões do país. No entanto, assinala-se que as mulheres revelam posições ligeiramente mais favoráveis à solidariedade internacional e maior preocupação com questões relativas a direitos humanos, igualdade e justiça social.

Já no que respeita aos escalões etários, existem diferenças assinaláveis, pois embora os mais jovens se mantenham geralmente favoráveis à solidariedade internacional, nota-se um maior ceticismo e um maior peso de posições mais individualistas. Por exemplo, os mais jovens (18-24 anos) manifestam-se relativamente menos preocupados e afetados com os problemas da Humanidade, tendem a valorizar (ou acreditar) menos no poder da participação individual para gerar transformações, e 29% são da opinião de que a ONU deveria ser dissolvida (contra apenas 9% da média dos inquiridos). Estas são constatações preocupantes mas que podem constituir um apoio relevante a uma decisão informada, fornecendo pistas para a reflexão, para a definição de políticas e (re)formulação de medidas e abordagens no âmbito da Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global.

 

A sondagem foi realizada pela Pitagórica, a uma amostra representativa da população portuguesa, com um grau de confiança superior a 95% e uma margem de erro inferior a 3,8%. Foi implementada no âmbito do projeto “Desafios Globais para o Desenvolvimento”, promovido pelo Clube de Lisboa em parceria com a Plataforma para o Crescimento Sustentável e a Universidade Autónoma de Lisboa, com cofinanciamento Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., tendo especificamente como objetivo tornar mais presente e visível o desenvolvimento equitativo e sustentável e os valores da solidariedade internacional nas agendas públicas, dos decisores e dos media em Portugal.

 

Artigo publicado na Plataforma portuguesa das ONGD.
Artigo elaborado para o projeto “Desafios Globais para o Desenvolvimento”, implementado pelo Clube de Lisboa, a PCS e a UAL, com cofinanciamento Camões I.P.