25.03.2026

Para onde nos leva a guerra

Artigo de Opinião – Helena Freitas

A guerra tornou-se uma presença ao mesmo tempo distante e próxima. Distante porque quem decide raramente a vê de perto. Próxima porque as suas consequências atravessam fronteiras, invadem ecrãs, contaminam a atmosfera do nosso tempo. Disparam-se mísseis a partir de milhares de quilómetros, levantam-se drones que sobrevoam cidades inteiras, e as decisões são tomadas em salas silenciosas, diante de mapas luminosos e ecrãs cheios de pontos vermelhos. Pode mesmo imaginar-se que essas decisões são tomadas com a mesma leveza com que se decide um jogo ou se conclui uma partida de golfe. A guerra, para quem a ordena, tornou-se técnica, distante, quase abstrata. Para quem a sofre, continua a ser brutalmente real.

A humanidade raramente conheceu longos períodos de paz. O mundo viveu sempre atravessado por guerras múltiplas, espalhadas por todas as geografias. A paz, tantas vezes celebrada como conquista definitiva, foi quase sempre apenas um intervalo; um breve respirar entre destruições sucessivas.

Depois da segunda guerra mundial acreditou-se, porém, que algo podia mudar. O horror vivido parecia demasiado grande para se repetir. Surgiram instituições internacionais, afirmaram-se declarações universais de direitos humanos, falou-se de cooperação entre os povos como um caminho inevitável. Durante algum tempo alimentou-se a ideia de que a humanidade aprendera finalmente com o seu próprio abismo. Hoje essa esperança parece mais frágil do que nunca.

O absurdo da guerra afinal nunca desapareceu. Apenas mudou de forma, de linguagem, de tecnologia. Continuou à espreita, latente, à espera de novas razões ou de novos pretextos. Não existem territórios verdadeiramente imunes a esse flagelo.

A guerra que hoje atravessa o Médio Oriente foi anunciada sob o argumento de libertar um povo e destruir um regime, mas as guerras raramente são apenas aquilo que dizem ser. Por detrás das narrativas oficiais movem-se interesses estratégicos, alianças silenciosas, equilíbrios de poder cuidadosamente calculados. Percebe-se com clareza o interesse particular de Israel neste conflito, assim como a convergência de posições com os Estados Unidos. A geopolítica raramente se move por gestos inocentes.

Mas enquanto os motivos são discutidos em mesas diplomáticas e nos corredores do poder, o que realmente cresce e inquina é a devastação.

Morrem muitas pessoas. Cidades inteiras tornam-se ruínas. Infraestruturas vitais são reduzidas a escombros. Rios e mares recebem a carga invisível da contaminação. Os solos empobrecem. A natureza é ferida de forma profunda e muitas vezes irreversível. A produção alimentar fragiliza-se, a pobreza instala-se, e as populações ficam presas num presente de escassez e num futuro de incerteza.

Estas são guerras que não poupam nada nem ninguém. Fragilizam comunidades inteiras, interrompem vidas, destroem capacidades produtivas e deixam atrás de si uma herança pesada de sofrimento e instabilidade. São guerras que continuam muito depois dos combates terminarem, infiltradas na pobreza, na doença, no medo e na perda.

E enquanto tudo isto acontece, o planeta vai sendo lentamente consumido pela soma destas destruições. Cada guerra acrescenta mais uma ferida a um mundo já profundamente vulnerável.

Talvez o mais inquietante seja isto: continuamos a avançar nesta trajetória como se não percebêssemos o destino para onde ela nos conduz.

Destruímos o planeta a uma velocidade vertiginosa, esquecendo — ou fingindo esquecer — que, no fim desse caminho, não está apenas o inimigo.

Estamos nós.

 


Professora Catedrática da Universidade de Coimbra, Coordenadora do CFE – Centre for Functional Ecology, UNESCO Chair em Biodiversidade.

Artigo originalmente publicado no no Jornal do Fundão, 25 de março de 2026.
Artigo elaborado para o projeto “Desafios Globais para o Desenvolvimento”, implementado pelo 
Clube de Lisboa, a PCS e a UAL, com cofinanciamento Camões I.P.