28.11.2025
O resultado final da COP30 é claramente insuficiente. Não responde à urgência
Artigo de Opinião – Helena Freitas
A professora e investigadora da Universidade de Coimbra, que esta segunda-feira (24/11) recebe o Grande Prémio Ciência Viva 2025, esteve em Belém na COP30 e faz ao DN um balanço sobre as conclusões.
A professora venceu o Grande Prémio Ciência Viva 2025, que será entregue esta segunda-feira, 24 de novembro, no Pavilhão do Conhecimento. O que significa para si este prémio?
É um reconhecimento muito especial por vir de uma agência que eu acompanho desde a sua génese, com muito interesse e até com algum afeto, porque o papel que desempenha é absolutamente único na promoção e na difusão da cultura científica. Eu ainda me recordo do professor Mariano Gago [o ex-ministro que criou a agência em 1996 e morreu em 2015], da visão que ele tinha relativamente ao poder da ciência e à necessidade de levarmos a cultura científica ao país, aos territórios, às escolas, às famílias. E é um prémio à promoção da cultura científica, não é por acaso que se celebra no Dia Nacional da Cultura Científica. Sinto que não é um prémio pessoal, mas um que me torna também cúmplice, embaixadora, deste processo, desta equipa, desta família que a Ciência Viva representa. E também é importante pela área que premeia, porque o meu percurso é também o da minha equipa, das pessoas e dos projetos em que me envolvi na área da Biodiversidade. Sinto enorme alegria e também muita gratidão.
Esteve na Conferência do Clima da ONU, que terminou no sábado, 22 de novembro, em Belém. O Brasil apresentou a COP30 como a cimeira da implementação. Mas ficou muito aquém do esperado…
Eu estive em Belém num evento paralelo à COP30, organizado pela cátedra UNESCO Sul-Sul da Universidade do Pará, que tinha a ver com as florestas tropicais e a necessidade de criar dinâmicas de rede entre a comunidade científica e trazer as florestas tropicais para a ordem do dia. E a Universidade de Coimbra também quis estar presente. Relativamente à COP30, não há dúvida que o resultado final é claramente insuficiente. Não responde à urgência. Fica muito aquém das expectativas, sobretudo tendo em conta que temos hoje uma comunidade científica profundamente empenhada em garantir a informação científica de base para a tomada de decisões. E face à informação científica que existe, não há dúvida que a COP30 falha em vários sentidos. Não há decisões transformadoras e, de facto, há uma incapacidade real de enfrentar aquilo que são os principais problemas da crise climática e ecológica. Estávamos num contexto da Amazónia, que se esperava que inspirasse o mundo, mas o resultado final não reflete esse contexto e essa singularidade.
Nem tudo foi negativo, houve alguns aspetos positivos…
Há dois ou três aspetos que vale a pena mencionar. A COP30 triplica o financiamento de adaptação. Fica aquém das necessidades dos países em desenvolvimento, mas é importante pôr o foco na adaptação às alterações climáticas. Também há o programa que o próprio presidente do Brasil anunciou para a proteção das florestas, o Fundo das Florestas Tropicais para Sempre. E destaco também o papel das comunidades tradicionais, a COP30 elevou as vozes dos povos indígenas. Esses são talvez os aspetos que se podem destacar, mas também é preciso dizer que o contexto geopolítico é muito desafiante. É muito difícil a cooperação climática internacional aportar resultados num contexto desta dificuldade, com a ausência, por exemplo, dos EUA, e um ambiente favorável aos prevaricadores neste processo, os lóbis dos combustíveis fósseis, que encontram nestas divergências a oportunidade de fazer valer os interesses.
Nesse contexto, o facto de haver um acordo final, quando noutras ocasiões já neste ano não foi possível, também é positivo. Será que o facto de os EUA não estarem acabou por ajudar?
Os americanos não estarem presentes é, indiscutivelmente, um aspecto globalmente negativo, porque nós queremos que estejam todos e queremos que isto seja, de facto, um acordo global. E os EUA são responsáveis por cerca de 13% das emissões, para além do papel político que têm. Mas é certo, como diz, tendo em conta o tom conflitual que a atual Administração norte-americana tem tido, que eventualmente ajudou. Não é por acaso que os países, e são muitos, sentem a necessidade de criar lógicas paralelas. Eram mais de 80 países aqueles que defendiam explicitamente a oportunidade de vincular, no acordo final, o roteiro concreto para o fim dos combustíveis fósseis. São muitos países, é muito significativo, e por isso de alguma maneira abre-se aqui uma porta. Nós precisamos de caminhos. A vantagem que estes acordos têm é exatamente isso, apontar uma visão, apontar caminhos. E mesmo que existam muitas fragilidades nestes processos, que são visíveis, é muito importante conseguirmos ter alguma fórmula consensual. Era muito importante termos um acordo, mesmo que frágil, insuficiente. É preciso manter a capacidade de formular planos globais e contrariar a lógica de fragmentação de alguns países poderosos ou interesses.
Mas o roteiro para o fim dos combustíveis fósseis não estar no acordo final, vinculativo, e ser apenas voluntário, é negativo…
A ausência de uma linguagem forte sobre os combustíveis fósseis é um retrocesso. Nesta altura não tem justificação, e menos ainda quando a ciência é tão clara. O consenso científico é absoluto, as sociedades também já têm esta percepção evidente. Por isso, neste momento, é realmente uma incapacidade política, é mesmo falta de vontade política de conseguirmos um consenso.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, diz que a organização não vai abandonar o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5ºC. Diz que é uma linha vermelha. Mas as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas ficaram muito aquém e há quem diga que se calhar não devíamos estar tão focados nesse número. Qual é a sua opinião?
Eu compreendo isso, a ideia de que com o 1,5ºC ficamos condicionados. E de facto perante os cenários que hoje temos, e são muitos e os modelos são cada vez mais capazes de o demonstrar, nós vamos chegar este ano ao 1,1ºC e continuamos a aumentar as emissões. Há expectativas… há países que estão realmente a conseguir fazer um caminho promissor, mas, globalmente, de facto, continuamos numa senda de crescimento das emissões que nos levará, no final deste século, a duplicar pelo menos este valor. Portanto, também não penso que será o melhor caminho focarmo-nos nos 1,5ºC. Mas também não queria de todo abandoná-lo. Desde logo porque está consignado num acordo que conseguimos fazer, o de Paris. É instrumental, foi um valor que definimos como prioridade para a humanidade. Aqui chegados, já percebemos, contudo, que estamos a ultrapassar e isso pode ser limitativo. Mas não devemos abdicar deste objetivo já. Temos que continuar a trabalhar em função dele. Porque há o risco de começar a trabalhar, a fazer a aposta na adaptação [ações para responder às consequências das alterações climáticas] e esquecemos a mitigação [ações para travar o aquecimento global]. Mas esta também é fundamental. As coisas têm que ir par a par. A adaptação é evidentemente desejável, é absolutamente inexorável, não temos outro caminho. Mas também há risco se abraçarmos plenamente a adaptação e deixarmos de lado a mitigação. Continua a haver razões de sobra para manter o objetivo de mitigar, até porque mesmo o 1,5ºC já nos conduz a perdas significativas para os grandes ecossistemas do mundo.
Como responder àquelas pessoas que dizem que estamos a fazer sacrifícios para nada, porque os chineses ou os americanos continuam a poluir?
Nós não estamos a trabalhar em benefício desta ou daquela sociedade. A questão climática, a crise climática, é uma crise global. Os processos em curso que derivam deste aquecimento global têm impacto geral sobre o planeta. A questão é por que é que alguns países se comprometem e fazem, de facto, esse esforço e esse sacrifício, quando coletivamente aparentemente não conseguimos chegar lá. Mas não é bem assim. A transição energética, por exemplo, penso que já começa a ser percebida, mesmo pelas economias mais competitivas, como sendo uma transição que vai beneficiar muito rapidamente as economias e não prejudicar. E além disso vai também conduzir a sociedades que têm melhor qualidade de vida, têm mais saúde, têm ecossistemas mais saudáveis. Eu penso que aquilo que temos que começar a mostrar, e também aqui entram os mecanismos de transição justa, é que, de facto, nós vamos conseguir – quando fazemos a transição, quando isso acontece, quando isso é possível – melhores salários, melhores condições de bem-estar e de vida. Porque o impacto da transição climática na competitividade dos países vai começar a ser muito visível.
Nesta COP houve a ideia do mutirão, usando a palavra de origem tupi que designa uma comunidade que trabalha em conjunto para alcançar um objetivo comum. Houve mais espaço para a sociedade civil nesta COP?
Houve essa tentativa, pelo menos da parte do Brasil, de criar também uma plataforma para tornar mais visível a informação que vinha da COP. Alguns mecanismos de maior transparência. Mas também não é fácil, as discussões decorrem com alguma dificuldade e sempre com grande tensão e é preciso estabelecer consensos a alto nível, o que não é fácil. Mas houve maior abertura no sentido de trazer os povos indígenas, por exemplo, e permitir alguma proximidade.
A COP31, no próximo ano, vai ser presidida pela Austrália, mas decorre na Turquia. Sente que devia haver mudança do modelo das COP?
A COP em si parece começar a ser um exercício que, às vezes, dá algum descrédito. Mas a COP verdadeira acontece nos bastidores, na medida em que acaba por suscitar, por exemplo, pela parte da comunidade científica, a preparação de dossiers específicos, até a um exercício mais robusto para conseguir providenciar os dados necessários. E não podemos abdicar deste exercício que acaba por ser coletivo, ainda por cima quando a sociedade civil já tem uma percepção do que é a COP. Já acompanha também o processo, já está a ver onde vai ser o próxima. Coisa que não acontece, por exemplo, na Convenção para a Biodiversidade. As pessoas não fazem ideia de quando vai ser, nem em que número está. A COP17 da Convenção para a Biodiversidade será em 2026, na Arménia. E a Convenção para o Combate à Diversidade? Ninguém sabe, mas as três nasceram todas na cimeira do Rio em 1992. Portanto, abdicar deste mecanismo que já se construiu seria um erro tremendo. O que temos que tentar é que esse momento da COP, de grande visibilidade política e da sociedade, não seja apropriado pelos interesses, que depois também trabalham afincadamente para conseguir travar o progresso. O texto no final não inclui nada do que queríamos, nomeadamente em relação aos combustíveis fósseis. E estas coisas não acontecem por acaso. É preciso lutar mais contra isso. Fazer o possível para não desvirtuar o debate, levar lá os melhores, continuar a pedir à comunidade científica que produza dados, no campo da mitigação, da adaptação, trazendo também agora as lógicas setoriais, paralelas.

